Segunda-feira, Dezembro 07, 2009
A mentira está em ti
«Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?»
«Que é, vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?»
«Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram.»
«Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti.»
Alberto Caeiro
X, O Guardador de Rebanhos
Quinta-feira, Dezembro 03, 2009
Agora que ambos sabemos da irreversibilidade do tempo perdido
Agora que as palavras secaram
e se fez noite
entre nós dois,
agora que ambos sabemos
da irreversibilidade
do tempo perdido,
resta-nos este poema de amor e solidão.
No mais é o recalcitrar dos dias,
perseguindo-nos, impiedosos,
com relógios,
pessoas,
paredes demasiado cinzentas,
todas as coisas inevitavelmente
lógicas.
Que a nossa nem sequer foi uma história
diferente.
A originalidade estava toda na pólvora
dos obuses, no circunstanciado
afivelar
dos sorrisos à nossa volta
e no arcaísmo da viela onde fazíamos amor.
Eduardo Pitta
Terça-feira, Dezembro 01, 2009
Esta é a hora das minhas confidências
Este é o alimento justamente repartido, esta é a carne para a fome,
Tanto com o mau como com o bom, com todos marco encontro,
Ninguém será menosprezado ou omitido,
A concubina, o parasita, o ladrão, estão pela presente convidados,
O escravo de grossos lábios está convidado, o sifilítico está convidado;
Não haverá diferença entre os demais.
Esta é a pressão de uma mão tímida, este é o aroma dos cabelos que esvoaçam,
Este é o roçar dos meus lábios nos teus, este é o murmúrio do desejo,
Esta é a profundeza e a altura distantes reflectindo o meu próprio rosto,
Esta é a meditativa fusão de mim próprio, e a saída outra vez.
Achas que tenho algum propósito obscuro?
Sim, tenho, como o têm as chuvas do quarto mês, e o tem a mica sobre as rochas.
Pensas que quero assombrar?
A luz do dia assombra? O pisco-ferreiro madrugador que chilreia nos bosques assombra?
Eu assombro mais do que eles?
Esta é a hora das minhas confidências,
Talvez não as faça a todos, mas a ti farei.
XIX - Walt Whitman
em «Canto de mim mesmo»
Domingo, Novembro 29, 2009
"O que é preciso é irmos todas as noites cada vez mais longe"
-E depois?
-Ou será sempre depois ou deixa de haver depois. Não podemos parar.
-Eu preferia que voltássemos para trás...
-Não. Isso nunca.
-Que deixássemos, de uma vez para sempre, este maldito barco.
-Pensas agora assim porque estás cansada.
-Não. Não me conformo com a ideia de vivermos aqui, cada noite acordados num porto diferente... Quero uma casa. Preciso de ver pessoas. Quero voltar a sentir terra debaixo dos pés. Quero deixar de ouvir o mar.
-Amanhã vais ver que já pensas de outra maneira. Que hás-de ser tu própria a desafiar-me...
-És tu que me tens viciado. Mas não podemos continuar assim por muito tempo.
-Podemos sim. Verás que podemos. E promete-me já que hás-de inventar amanhã uma nova surpresa! Promete-me que serás capaz.
-Não sei Lépido. Farei o possível, mas não sei...
-Era só isso que eu te queria ouvir. Amanhã recomeçamos.
em «Amanhã Recomeçamos», David Mourão-Ferreira
Etiquetas: Amor, Literatura
Terça-feira, Novembro 24, 2009
O próprio silêncio é ás vezes indiscreto
Não interrogues. E não digas
também
segredos ao ouvido.
O próprio silêncio
é às vezes indiscreto.
Silêncio - Albano Martins
Sexta-feira, Novembro 20, 2009
O amor é um pássaro
A paixão amorosa é uma amizade (uma conciliação a dois) levada até à loucura. É mais do que viver o instante sem porém deixar de gozar e de sofrer cada nuance do instante. Amor é o desejo que me causa a tua beleza total, sempre movendo-se, e que respeito. Quero dizer: se a mulher que amo já não me ama com igual intensidade devo partir porque na minha concepção amor é o que se vive entre iguais, ao mesmo tempo, ainda que lhes seja imposta uma separação. Se me dizes que o amor é irreal e fantasmagórico e que tens medo ao mesmo tempo que te abres, tudo bem; se te fechas também estará bem pois o amor é um pássaro, ou devia ser, só preso à sua liberdade. Por isso estou sempre a dizer-te adeus, e tu a mim.
em «Eros» - Casimiro de Brito
Etiquetas: Amizade, Amor, Literatura
Quinta-feira, Novembro 19, 2009
Quando o amor te acenar...
Sábado, Novembro 07, 2009
Sabemos que é possível!
Sonhamos que é possível outro mundo e tornaremos realidade esse outro mundo possível.
em «O Poder dos Sonhos», Luis Sepúlveda
Etiquetas: Citações, Filosofia, Literatura, Luta
Segunda-feira, Novembro 02, 2009
A tortura do beijo que não demos
Todo o dia senti, bem funda, em mim,
a tortura do beijo que não demos:
lago sereno, preso num jardim,
saudoso dum nenhum sulcar de remos...
Cantiga - David Mourão-Ferreira
Segunda-feira, Outubro 26, 2009
Pisa com cuidado
Se eu tivesse as sedas bordadas do céu,
com bainhas de luz de ouro e de prata,
as sedas azuis e sombrias e escuras,
da noite e da luz e da meia-luz,
deitava-as todas aos teus pés.
Mas eu sou pobre e só tenho os meus sonhos.
Deitei-os todos aos teus pés.
Pisa com cuidado,
é nos meus sonhos que estás a pisar.
W. B. Yeats
(trad. Miguel Esteves Cardoso)