Quinta-feira, Fevereiro 04, 2010
Preparo em silêncio a mesa do jogo
Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.
Jogo - Nuno Júdice
em «A Fonte da Vida»
Terça-feira, Fevereiro 02, 2010
Sim, é preciso sanear, desinfetar a coisa pública
Entre a coisa pública
e a privada
achou-se a República
assentada.
Uns queriam privar
da coisa pública,
outros queriam provar
da privada,
conquanto, é claro,
que, na provação,
a privada, publicamente,
parecesse perfumada.
Dessa luta intestina
entre a gula pública e a privada
a República
acabou desarranjada
e já ninguém sabia
quando era a empresa pública
privada pública
ou
pública privada.
Assim ia a rês pública: avacalhada
uma rês pública: charqueada
uma rês pública, publicamente
corneada, que por mais
que lhe batessem na cangalha
mais vivia escangalhada.
Qual o jeito?
Submetê-la a um jejum?
Ou dar purgante à esganada
que embora a prisão de ventre
tinha a pança inflacionada?
O que fazer?
Privatizar a privada
onde estão todos
publicamente assentados?
Ou publicar, de uma penada,
que a coisa pública
se deixar de ser privada
pode ser recuperada?
— Sim, é preciso sanear,
desinfetar a coisa pública,
limpar a verba malversada,
dar descarga na privada.
Enfim, acabar com a alquimia
de empresas públicas-privadas
que querem ver suas fezes
em ouro alheio transformadas.
A Coisa Pública e a Privada - Affonso Romano de Sant'Anna
em «A poesia possível»
Rio de Janeiro: Rocco, 1987. Poema integrante da série Aprendizagem de História
Segunda-feira, Fevereiro 01, 2010
Foi proclamada a república
O rei pediu quartel
Foi proclamada a república
Neste bordel
Eu vou virar artista
Ficar famosa, falar francês
Autografar com as unhas
Eu vou, nas costas do meu freguês
Eu cobro meia entrada
Da estudantada que não tem vez
Aqui no meu teatro
Grupo de quatro paga por três
O rei pediu quartel
Foi proclamada a república
Neste bordel
Faço qualquer negócio
passo recibo, aceito cartão
Faço facilitado, financiado
E sem correção
Ao povo nossas carícias
Ao povo nossas carências
Ao povo nossas delícias
E nossas doenças
Mambordel - Chico Buarque
Sexta-feira, Janeiro 29, 2010
Chile, um retrocesso
A direita voltou, por via democrática, ao poder no Chile mais de meio século depois. Para comemorar, a extrema direita dirigiu-se à sede do Partido Comunista do Chile para demonstrar o seu afecto. As homenagens a Pinochet (a direita que esteve no poder até ao início dos anos 90) - "General Pinochet, este triunfo é para você" ou "Com Allende faremos uma ponte por onde de passarão Pinochet e o os seus valentes" entre outras - demonstram bem de que é feita a massa destes homens.
(por baixo de uma fotografia de Hitler)
Isso que aí está, esteve quase a governar o mundo.
Mas os povos dominaram-no. No entanto
desejaria não ouvir o vosso triunfante canto:
O ventre, donde isto saiu, ainda é fecundo.
Bertolt Brecht
Quinta-feira, Janeiro 28, 2010
La reproduction interdite
Quarta-feira, Janeiro 27, 2010
Provérbio árabe
A simplicidade é um tesouro infinito.
Se não podes ter o que queres,
contenta-te com o que tens.
Etiquetas: Citações, Filosofia
Sexta-feira, Janeiro 22, 2010
Mas é o povo quem atravessa O deserto, e tábuas desamigas
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«árvores que andam»
S.Marcos,8,24.Os príncipes fazem a guerra
Mas é o povo quem atravessa
O deserto, e tábuas desamigas.
A quem prometeram ouro & ébano
Restam apenas o cisco & a cólera.
Quando a guerra findar outra doença
Nascerá, flor púrpura; quando
Em caves de pedra a palavra
Hibernar. Quem vive tapa os ouvidos
Aos carros que levantam a poeira
Nos campos do meio-dia. Arde o ar.
Ardem árvores no meio do caminho.
em «Na via do mestre» - Casimiro de Brito
Etiquetas: Filosofia, Luta, Poesia
Segunda-feira, Janeiro 18, 2010
Penso em auroques e anjos
Penso em auroques e anjos, no segredo dos pigmentos duráveis, em proféticos sonetos, no refúgio da arte. E essa é a única imortalidade que tu e eu podemos compartilhar, minha Lolita.
em «Lolita», Vladimir Nabokov
Etiquetas: Amor, Literatura
Quinta-feira, Janeiro 14, 2010
Reclining Nude
Segunda-feira, Janeiro 11, 2010
Gosto das mulheres que envelhecem
Gosto das
mulheres que envelhecem,
com a pressa das suas rugas, os cabelos
caídos pelos ombros negros do vestido,
o olhar que se perde na tristeza
dos reposteiros. Essas mulheres sentam-se
nos cantos das salas, olham para fora,
para o átrio que não vejo, de onde estou,
embora adivinhe aí a presença de
outras mulheres, sentadas em bancos
de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem
sentem que as olho, que admiro os seus gestos
lentos, que amo o trabalho subterrâneo
do tempo nos seus seios. Por isso esperam
que o dia corra nesta sala sem luz,
evitam sair para a rua, e dizem baixo,
por vezes, essa elegia que só os seus lábios
podem cantar.
Gosto das mulheres que envelhecem - Nuno Júdice
Etiquetas: Amor, Filosofia, Mulheres, Poesia

