segunda-feira, fevereiro 22, 2010

El preámbulo del amor

12

Desciendes
por mis cabellos
mis labios
mi cabeza

Espero tu llamado
como una yegua en celo
sobre las sábanas ardientes
desciendo
hasta tocar
tu sexo

Inundas mis horas
con tus manos
formas mi cuerpo
mis curvas de sal
esas mismas curvas
donde tus palabras se silencian
donde se forman ríos
de tu saliva espesa

mis dedos escriben
mi lengua
el preámbulo del
amor

Marina Cedro
em «Amo Agora», Casimiro de Brito e Marina Cedro

(ler mais sobre o livro aqui)

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Os livros estão sempre sós

Os livros estão sempre sós. Como nós. Sofrem o terrível impacto do presente. Como nós. Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar. Como nós. Calam a sua fúria com a sua farsa. Como nós. Têm fachadas lisas ou não. Como nós. Formosas, delirantes, horrorosas. Como nós. Estão ali sendo entretanto. Como nós. No limiar do esquecimento. Como nós. Cheios de submissão ao serviço do impossível. Como nós.

Ana Hatherly
em «Tisanas»

sábado, fevereiro 13, 2010

Nada tuyo es secreto

Cuéntame cómo vives;
dime sencillamente cómo pasan tus días,
tus lentísimos odios, tus pólvoras alegres
y las confusas olas que te llevan perdido
en la cambiante espuma de un blancor imprevisto.

Cuéntame cómo vives;
ven a mí, cara a cara;
dime tus mentiras (las mías son peores),
tus resentimientos (yo también los padezco),
y ese estúpido orgullo (puedo comprenderte).

Cuéntame cómo mueres;
nada tuyo es secreto:
la náusea del vacío (o el placer, es lo mismo);
la locura imprevista de algún instante vivo;
la esperanza que ahonda tercamente el vacío.

Cuéntame cómo mueres;
cómo renuncias -sabio-,
cómo -frívolo- brillas de puro fugitivo,
cómo acabas en nada
y me enseñas, es claro, a quedarme tranquilo.

Cuéntame cómo vives, cómo vas muriendo - Gabriel Celaya

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

As nuvens vão mais do que vêm

Sonhei contigo: um olhar, o teu corpo alucinante esmagado sobre o meu, a tua figura engolida pela noite e pelo vento no terraço da casa da praia. A neblina colorida do mar mediterrâneo. Ela, que eras tu, afastando-se e aproximando-se, vezes sem conto, sorrindo leve. Acordei e chorei. As nuvens vão mais do que vêm. Canto e choro e recordo cada um dos nossos instantes na casa do amor. Desejo-te com ternura. São gémeas a chama e a flor, a paixão e a amizade. E digo-te. E respondes: “Amo-te com a mesma loucura mas agora mais sabiamente.” Não entendo.

em «Eros» - Casimiro de Brito

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Preparo em silêncio a mesa do jogo

Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

Jogo - Nuno Júdice
em «A Fonte da Vida»

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Sim, é preciso sanear, desinfetar a coisa pública

Entre a coisa pública
e a privada
achou-se a República
assentada.

Uns queriam privar
da coisa pública,
outros queriam provar
da privada,
conquanto, é claro,
que, na provação,
a privada, publicamente,
parecesse perfumada.

Dessa luta intestina
entre a gula pública e a privada
a República
acabou desarranjada
e já ninguém sabia
quando era a empresa pública
privada pública
ou
pública privada.

Assim ia a rês pública: avacalhada
uma rês pública: charqueada
uma rês pública, publicamente
corneada, que por mais
que lhe batessem na cangalha
mais vivia escangalhada.

Qual o jeito?
Submetê-la a um jejum?
Ou dar purgante à esganada
que embora a prisão de ventre
tinha a pança inflacionada?

O que fazer?
Privatizar a privada
onde estão todos
publicamente assentados?
Ou publicar, de uma penada,
que a coisa pública
se deixar de ser privada
pode ser recuperada?

— Sim, é preciso sanear,
desinfetar a coisa pública,
limpar a verba malversada,
dar descarga na privada.

Enfim, acabar com a alquimia
de empresas públicas-privadas
que querem ver suas fezes
em ouro alheio transformadas.

A Coisa Pública e a Privada - Affonso Romano de Sant'Anna
em «A poesia possível»
Rio de Janeiro: Rocco, 1987. Poema integrante da série Aprendizagem de História

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Foi proclamada a república

O rei pediu quartel
Foi proclamada a república
Neste bordel

Eu vou virar artista
Ficar famosa, falar francês
Autografar com as unhas
Eu vou, nas costas do meu freguês

Eu cobro meia entrada
Da estudantada que não tem vez
Aqui no meu teatro
Grupo de quatro paga por três

O rei pediu quartel
Foi proclamada a república
Neste bordel

Faço qualquer negócio
passo recibo, aceito cartão
Faço facilitado, financiado
E sem correção

Ao povo nossas carícias
Ao povo nossas carências
Ao povo nossas delícias
E nossas doenças

Mambordel - Chico Buarque