Asno ou vaca cavalo ou galo
até a pele de um violino
Homem cantor uma só ave
dançarinos ágil com sua mulher
Par revestido de têmpera na sua primavera
O ouro vegetal o chumbo celeste
cindidos pelas chamas roxas
da saúde do orvalho
o sangue irisa-se o coração tilinta
Um casal o reflexo primeiro
E num subterrâneo de neve
a vinha opulenta desenha
Um rosto com lábios de lua
que nunca dormiu à noite
A Marc Chagall - Paul Éluard
terça-feira, junho 30, 2009
domingo, junho 28, 2009
Liberdade de acção

Nollendorfplatz - Ernst Ludwig Kirchner, 1912
Painting is the art which represents a phenomenon of feeling on a plane surface. The medium employed in painting, for both background and line, is color … Today photography reproduces an object exactly. Painting, liberated from the need to do so, regains freedom of action … The work of art is born from the total translation of personal ideas in execution.
Ernst Kirchner
sábado, junho 27, 2009
Infundir-te, irmã, meu veneno!
Teu ar, teu gesto, tua fronte
São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.
A mágoa que te roça os passos
Sucumbe à tua mocidade,
À tua flama, à claridade
Dos teus ombros e dos teus braços.
As fulgurantes, vivas cores
De tua vestes indiscretas
Lançam no espírito dos poetas
A imagem de um balé de flores.
Tais vestes loucas são o emblema
De teu espírito travesso;
Ó louca por quem enlouqueço,
Te odeio e te amo, eis meu dilema!
Certa vez, num belo jardim,
Ao arrastar minha atonia,
Senti, como cruel ironia,
O sol erguer-se contra mim;
E humilhado pela beleza
Da primavera ébria de cor,
Ali castiguei numa flor
A insolência da Natureza.
Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,
Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu peito perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,
E, como êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!
A que está sempre alegre - Charles Baudelaire
sexta-feira, junho 26, 2009
Licença para descansar
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
Exausto - Adélia Prado
quarta-feira, junho 24, 2009
terça-feira, junho 23, 2009
Um livro será sempre o ritmo do que está a nascer
Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem
ou para beber a água de um espelho
ou para se embriagar como um pássaro ingénuo
A sôfrega retina
vai-se tornando felina e inflada
e os seus liames tremem entre o júbilo e agonia
Um livro é redondo como uma serpente enrolada
e formado de fragmentos onde lateja o sangue
[ de um pulso
que já não é de um autor que nunca o foi
e que será sempre o ritmo do que está a nascer
irrigando o nada e os terraços sobre os abismos
Nunca o livro se completa embora o redondo
[ o circunde
e o mova para o seu interior sem nunca o envolver
Jamais a nuvem se dissipa mesmo quando
[ a claridade ofusca
Como se fosse preciso adormecer nela como sobre
[ os ombros do mundo
para acompanhar o fluxo ingenuamente novo
com os delicados diademas de fogo e espuma
O livro ora é de veludo ora de bronze
e os seus traços abrem janelas ou terraços
sobre o corpo latente como um arbusto entre pedras
Se a palavra vibra como um meteoro ou desliza
[ como uma anémona
ou não é mais do que uma estrela de areia
a sua proa sulca o incessante intervalo
entre o ardor de incompletos liames
e a estátua aérea que se eleva à sua frente
e continuamente se forma e se deforma
por não ser nada e ser o alvo puro
de um movimento ingénuo sonâmbulo e incerto.
Todo aquele que abre um livro - António Ramos Rosa
segunda-feira, junho 22, 2009
domingo, junho 21, 2009
sábado, junho 20, 2009
Música Popular Portuguesa
Ao alto e ao alto
Ao alto e ao alto
Quanto mais acima
Maior é o Salto
Larilolela, Ao alto e ao alto
Ao alto e ao alto
Ao alto Piu Piu
Passarinho novo
Da corda fugiu
Larilolela, Ao alto piu piu
Ó chula, ó chula
Ó chula de Braga
Bebeste o vinho
Quebraste a malga
Larilolela, Ó chula de Braga
Eu bem te dizia
Eu bem te dizia
Se a mim não me amasses
Eu logo morria
Larilolela, Eu bem te dizia
Eu quero, eu quero
Eu quero, eu queria
Dormir uma noite
Contigo Maria
Larilolela, Eu quero, eu queria.
Cantiga do Bombo
sexta-feira, junho 19, 2009
quinta-feira, junho 18, 2009
Quer seja dia, quer faça treva, varre sem pena
Vem vento, varre
sonhos e mortos.
Vem vento, varre
medos e culpas.
Quer seja dia,
quer faça treva,
varre sem pena,
leva adiante
paz e sossego,
leva contigo
nocturnas preces,
presságios fúnebres,
pávidos rostos
só cobardia.
Que fique apenas
erecto e duro
o tronco estreme
de raiz funda.
Leva a doçura,
se for preciso:
ao canto fundo
basta o que basta.
Vem vento, varre!
Vem vento, varre! - Adolfo Casais Monteiro
quarta-feira, junho 17, 2009
terça-feira, junho 16, 2009
Não entendo os silêncios que tu fazes
Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo
Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo que não
digo
Se te calas
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei, não te persigo
Estendo-te as mãos
dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo
Os silêncios - Maria Teresa Horta
segunda-feira, junho 15, 2009
Contributo para o plano nacional de leitura
Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.
Eugénio de Andrade
domingo, junho 14, 2009
sábado, junho 13, 2009
Caridades
As senhoras da sociedade
deram um baile a rigor
para vestir a pobreza
e a pobreza horas a fio
cortou, coseu, enfeitou
os vestidos deslumbrantes
que a caridade exibiu.
Depois das contas bem feitas
bem tiradas as despesas
arranjou um namorado
a mais nova das Fonsecas;
esteve bem a viscondessa,
veio o nome e o retrato
da comissão nos jornais,
e o Doutor, o Menezes,
o senhor desembargador,
estiveram muito engraçados,
dançaram o tiro-liro
já meio-tombados...
Parece que ainda sobrou
algum dinheiro para chita
para vestir a pobreza
numa festa comovente
com discursos de homenagem
e uma missa...
a que assistiu toda a gente.
Caridade - Joaquim Namorado
sexta-feira, junho 12, 2009
quinta-feira, junho 11, 2009
Nem melhor nem pior
Não amo
melhor
nem pior
do que ninguém.
Do meu jeito amo
Ora esquisito, ora fogoso,
às vezes aflito
ou ensandecido de gozo.
Já amei
até com nojo.
Coisas fabulosas
acontecem-me no leito. Nem sempre
de mim dependem, confesso.
O corpo do outro
é que é sempre surpreendente.
O amor e o outro - Affonso Romano de Sant'Anna
quarta-feira, junho 10, 2009
terça-feira, junho 09, 2009
segunda-feira, junho 08, 2009
Abram um livro de poemas!
Se cada um de vós,
ó vós outros da televisão
- vós que viajais inertes
como defuntos num caixão –
se cada um de vós abrisse um livro de poemas…
faria uma verdadeira viagem…
Num livro de poemas se descobre de tudo,
de tudo mesmo!
- Inclusive o amor e outras novidades.
Mário Quintana
domingo, junho 07, 2009
Eleições Europeias 2009
O samba vai vencer
Quando o povo perceber
Que é o dono da jogada
O samba vai crescer
Pelas ruas vai correr
Uma grande batucada
Samba não vai chorar mais
Toda gente vai cantar
O mundo vai mudar
E o povo vai cantar
Um grande samba em paz.
Samba em Paz - Elis Regina
sábado, junho 06, 2009
Por que é que fodemos o amor?
O amor é fodido. Hei-de acreditar sempre nisto. Onde quer que haja amor, ele acabará, mais tarde ou mais cedo, por ser fodido.
É melhor do que morrer. Há coisas, como o álcool e os livros, que continuam boas. A morte é mais aborrecida.
Por que é que fodemos o amor? Porque não resistimos. É do mal que nos faz. Parece estar mesmo a pedir. De resto, ninguém suporta viver um amor que não esteja pelo menos parcialmente fodido. Tem de haver escombros. Tem de haver esperança. Tem de haver progresso para pior e desejo de regresso a um tempo mais feliz. Um amor só um bocado fodido pode ser a coisa mais bonita deste mundo.
em «O Amor é fodido» (Ed. Assírio & Alvim), Miguel Esteves Cardoso
A Luta continua!
Eu vivi na cidade
No tempo da desordem
Vivi no meio da gente minha
No tempo da revolta
Comi minha comida
No meio da batalha
Amei, sem ter cuidado
Olhei e tudo que via
Sem tempo de bem ver
Assim passei o tempo
Que me deram pra viver
A voz da minha gente se levantou
E a minha voz junto com a dela
Tenho certeza que os donos da terra
Ficariam mais contentes
Se não ouvissem minha voz
Minha voz não pode muito
Mas gritar eu bem gritei!
É um tempo de guerra
É um tempo sem sol
É um tempo de guerra
É um tempo sem sol
Sem sol, sem sol, tem dó!
Sem sol, sem sol, tem dó!
E você que prossegue
E vai ver feliz a terra
Lembre bem do nosso tempo
Desse tempo que é de guerra
Veja bem que preparando
O caminho da amizade
Não podemos ser amigos, ao mau
Ao mau vamos dar maldade
Se você chegar a ver
Essa terra da amizade
Onde o homem ajuda ao homem
Pense em nós, só com vontade
Eu Vivo Num Tempo De Guerra - Maria Bethânia
O teu abismo de cólera orgulhosa
Afundas-te às vezes, cais
no teu fosso de silêncio,
em teu abismo de cólera orgulhosa
e só a custo consegues
regressar, mas ainda com vestígios
do que achaste
nas profundezas da tua existência.
Meu amor, o que encontras
no teu poço fechado?
Algas, lama, rochas?
Que vês de olhos cegos
rancorosa e ferida?
Vida minha, no poço
onde cais não acharás
o que no alto guardo para ti:
um ramo de jasmins orvalhados,
um beijo mais fundo do que o teu abismo
Não tenhas medo, não caias
de novo em teu rancor
Sacode as palavras que te feriram
e deixa que voem pela janela aberta.
Elas voltarão a ferir-me
sem que tu as dirijas,
pois foram proferidas em momento de dureza
e esse momento será desarmado em meu peito.
Sorri para mim radiosa
se a minha boca te fere.
Não sou um pastor brando
como os dos contos de fadas,
mas um bom lenhador que reparte contigo
terra, ventos e espinhos dos montes.
Ama-me tu, sorri,
ajuda-me a ser bom.
Não te refiras a mim, que será inútil,
não me firas a mim porque te feres.
O Poço - Pablo Neruda
sexta-feira, junho 05, 2009
O pretexto adiado
Pouco tenho para alinhavar.
Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.
Cercam-nos muros de silêncio
opresso.
A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam
a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido,
o pretexto adiado
e a memória a estiolar.
Eduardo Pitta
quinta-feira, junho 04, 2009
Há sempre alguém
Há sempre alguém que nos diz: "tem cuidado".
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco.
Há sempre alguém que nos faz falta.
Ah! Saudade...
Chegou hoje no correio a notícia
É preciso avisar por esses povos
Que turbulências e ventos se aproximam
Ah! Cuidado...
Há sempre alguém que nos diz: "tem cuidado".
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco.
Há sempre alguém que nos faz falta.
Ah! Saudade...
Foi chão que deu uvas, alguém disse
Umas, porém, colhe-se o trigo, faz-se o pão
E se ouvimos os contos de um tinto velho
Ah! Bebemos a saudade...
Há sempre alguém que nos diz: "tem cuidado".
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco.
Há sempre alguém que nos faz falta
Ah! Saudade...
E vem o dia em que dobramos os nossos cabos
Da roca a S. Vicente em boa esperança
E de poder vaguear com as ondas
Ah! Saudades do futuro...
Há sempre alguém que nos diz: "tem cuidado".
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco.
Há sempre alguém que nos faz falta.
Ah! Saudade...
Saudade - João Gil
quarta-feira, junho 03, 2009
segunda-feira, junho 01, 2009
O poema
Todo poema é feito de ar
apenas:
a mão do poeta
não rasga a madeira
não fere
o metal
a pedra
não tinge de azul
os dedos
quando escreve manhã
ou brisa
ou blusa
de mulher.
O poema
é sem matéria palpável
tudo
o que há nele
é barulho
quando rumoreja
ao sopro da leitura.
Ferreira Gullar
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