domingo, novembro 29, 2009

"O que é preciso é irmos todas as noites cada vez mais longe"

-E depois?

-Ou será sempre depois ou deixa de haver depois. Não podemos parar.

-Eu preferia que voltássemos para trás...

-Não. Isso nunca.

-Que deixássemos, de uma vez para sempre, este maldito barco.

-Pensas agora assim porque estás cansada.

-Não. Não me conformo com a ideia de vivermos aqui, cada noite acordados num porto diferente... Quero uma casa. Preciso de ver pessoas. Quero voltar a sentir terra debaixo dos pés. Quero deixar de ouvir o mar.

-Amanhã vais ver que já pensas de outra maneira. Que hás-de ser tu própria a desafiar-me...

-És tu que me tens viciado. Mas não podemos continuar assim por muito tempo.

-Podemos sim. Verás que podemos. E promete-me já que hás-de inventar amanhã uma nova surpresa! Promete-me que serás capaz.

-Não sei Lépido. Farei o possível, mas não sei...

-Era só isso que eu te queria ouvir. Amanhã recomeçamos.

em «Amanhã Recomeçamos», David Mourão-Ferreira

terça-feira, novembro 24, 2009

O próprio silêncio é ás vezes indiscreto

Não interrogues. E não digas
também
segredos ao ouvido.
O próprio silêncio
é às vezes indiscreto.

Silêncio - Albano Martins

sexta-feira, novembro 20, 2009

O amor é um pássaro

A paixão amorosa é uma amizade (uma conciliação a dois) levada até à loucura. É mais do que viver o instante sem porém deixar de gozar e de sofrer cada nuance do instante. Amor é o desejo que me causa a tua beleza total, sempre movendo-se, e que respeito. Quero dizer: se a mulher que amo já não me ama com igual intensidade devo partir porque na minha concepção amor é o que se vive entre iguais, ao mesmo tempo, ainda que lhes seja imposta uma separação. Se me dizes que o amor é irreal e fantasmagórico e que tens medo ao mesmo tempo que te abres, tudo bem; se te fechas também estará bem pois o amor é um pássaro, ou devia ser, só preso à sua liberdade. Por isso estou sempre a dizer-te adeus, e tu a mim.

em «Eros» - Casimiro de Brito

sábado, novembro 07, 2009

Sabemos que é possível!

Sonhamos que é possível outro mundo e tornaremos realidade esse outro mundo possível.

em «O Poder dos Sonhos», Luis Sepúlveda

segunda-feira, novembro 02, 2009

A tortura do beijo que não demos

Todo o dia senti, bem funda, em mim,
a tortura do beijo que não demos:
lago sereno, preso num jardim,
saudoso dum nenhum sulcar de remos...

Cantiga - David Mourão-Ferreira