quarta-feira, dezembro 31, 2008

Nunca o amor foi fácil

Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?, esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente á tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.

Amor - Eugénio de Andrade

terça-feira, dezembro 30, 2008

Os teus ombros reclamando nenhum manto

Os teus olhos
exigindo
ser bebidos

Os teus ombros
reclamando
nenhum manto

Os teus seios
pressupondo
tantos pomos

O teu ventre
recolhendo
o relâmpago

Os teus olhos - David Mourão-Ferreira

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Não digas seja o que for

Se duvidas que teu corpo
Possa estremecer comigo -
E sentir
O mesmo amplexo carnal,
- desnuda-o inteiramente,
Deixa-o cair nos meus braços,
E não me fales,
Não digas seja o que for,
Porque o silêncio das almas
Dá mais liberdade
às coisas do amor.

Se o que vês no meu olhar
Ainda é pouco
Para te dar a certeza
Deste desejo sentido,
Pede-me a vida,
Leva-me tudo que eu tenha -
Se tanto for necessário
Para ser compreendido.

Se duvidas que teu corpo - António Botto

domingo, dezembro 28, 2008

Eu julgava que te seria indiferente

- Kyo, vou dizer-te qualquer coisa de singular, e que no entanto é verdade. Até há cinco minutos, eu julgava que te seria indiferente. Talvez me conviesse julgá-lo... Há apelos, principalmente quando se está perto da morte... (é à dos outros que eu estou habituada, Kyo...) que nada têm que ver com o amor...

Contudo, o ciúme existia, tanto mais perturbante quanto o desejo sexual que ela lhe inspirava repousava na ternura. Com os olhos fechados, sempre apoiado no cotovelo, ele tentava (triste ocupação) compreender. Ouvia apenas a respiração opressa de May, e o raspar das patas do cãozinho. A sua dor provinha, em primeiro lugar (haveria, ah!, seguidos: sentia-os emboscados em si mesmos como os seus camaradas por detrás das portas ainda fechadas) de atribuir ao homem que acabara de ter relações com May (Não consigo, no entanto, chamar-lhe o seu amante) desprezo por ela. Era um dos antigos camaradas de May, mal o conhecia. Mas conhecia a misoginia fundamental de quase todos os homens. “A ideia que, tendo dormido com ela, porque dormiu com ela, pode pensar dela: “Aquela pegazita”, dá-me vontade de o espancar. Não seremos nunca ciumentos se não do que supomos que outrem supõe? Triste humanidade...”. Para May a sexualidade não a obrigava a nada. Era necessário que o tipo o soubesse. Que dormisse com ela, vá, mas não imaginasse que a possuía. “Estou a tornar-me pungente...” Mas nada podia, e não estava aí o essencial, sabia-o. O essencial, o que o perturbava até a angústia, era que de repente se separara dela, não pela raiva (ainda que houvesse raiva nele), não pelo ciúme (ou então seria o ciúme exactamente isso?); por um sentimento sem nome, tão destruidor como o tempo ou a morte: não a reencontrava. Reabrira os olhos: que ser humano era aquele corpo desportivo e familiar, aquele perfil perdido: os olhos grandes, partindo das têmporas, mergulhados entre a testa ampla e as maçãs do rosto? Aquela que acabara de ter relações? Mas não era também aquela que suportava as suas fraquezas, as suas dores, as suas irritações, aquela que tratara com ele os seus camaradas feridos, velara com ele os seus amigos mortos... A doçura da sua voz, ainda no ar... Não se esquece o que se quer. No entanto, aquele corpo retomava o mistério doloroso do ser conhecido transformado de repente... do mudo, do cego, do doido. E era uma mulher. Não uma espécie de homem. Outra coisa...

Ela escapava-lhe completamente. E, por causa disso talvez, o apelo furioso de um contacto intenso com ela o cegava, fosse qual fosse, pavor, gritos, pancadas. Levantou-se, aproximou-se dela. Sabia que estava num estado de crise, que no dia seguinte talvez já não compreendesse nada do que sentia, mas estava na frente dela como de uma agonia; como para uma agonia o instinto impelia-o para ela: tocar, apalpar, agarrar os que nos deixam, colarmo-nos a eles... Com que angustia ela o olhava, parado a dois passos dela... A revelação do que queria tombou por fim sobre ele; deitar-se com ela, refugiar-se contra a vertigem na qual a perdia inteira; não precisavam de se conhecer quando empregavam todas as forças em apertar os braços nos corpos.

em «A Condição Humana», André Malraux

sábado, dezembro 27, 2008

Isso é contigo

- Devo dizer-te uma coisa que vai talvez contrariar-te...
Apoiado no cotovelo, ele interrogou-a com o olhar. Ela era inteligente e corajosa, mas por vezes desastrada.
- Acabei por ter relações com Lenglen, esta tarde.
Ele encolheu os ombros, como para dizer: “Isso é contigo”. Mas o gesto, a expressão fechada do seu rosto, condiziam mal com esta indiferença. Ela olhava-o, extenuada, com as maçãs do rosto acentuadas pela luz vertical. Também ele olhava os seus olhos sem visão, na sombra, e nada dizia. Perguntava a si próprio se a expressão de sensualidade do rosto dela não viria daquilo que os seus olhos rasos de água e a ligeira tumidez dos lábios acentuavam com violência, por contraste com os seus traços, a feminilidade... Ela sentou-se na cama, pegou-lhe na mão. Ele quis retirá-la, mas deixou-a. Ela sentiu no entanto o movimento dele:
- Isto magoa-te?
- Disse-te que eras livre... Não me peças mais - disse ele, com amargura.
O cãozinho saltou para a cama. Ele retirou a mão, para o acariciar talvez.
- És livre - repetiu. - Pouco importa o resto.
- Enfim, eu devia dizer-te. Até por mim.
- Sim.
Que ela tivesse de lho dizer não era dúvida, nem para um nem para outro. Ele quis subitamente levantar-se: assim deitado, ela sentada na sua cama, como um doente velado por ela... Mas para quê? Tudo era tão completamente vão... Continuava contudo a olhá-la, a descobrir que ela podia fazê-lo sofrer, mas que, havia meses, olhasse-a ou não, não a via já; algumas expressões, por vezes... Aquele amor muitas vezes inquieto que os unia como uma criança doente, aquele sentido comum da vida e da morte de ambos, aquele entendimento carnal entre eles, nada disto existia em face da fatalidade que desvanece as formas de que os nossos olhares estão saturados. “Amá-la-ei menos do que julgo?”, pensou ele. Não. Mesmo neste momento, tinha a certeza de que, se ela morresse, ele não mais serviria a causa com esperança, mas com desespero, como se ele próprio fosse um morto. Nada, contudo, prevalecia contra o desbotar deste rosto enterrado no fundo da vida comum como em bruma, como na terra. Lembrou-se de um amigo que vira morrer a inteligência da mulher que amava, paralítica durante meses; parecia-lhe ver morrer May também, ver desaparecer absurdamente, como uma nuvem que se desfaz no céu pardo, a forma da sua felicidade. Como se ela morresse duas vezes: do tempo, e do que lhe dizia.

em «A Condição Humana», André Malraux

sexta-feira, dezembro 26, 2008

E um incerto destino infeliz...

Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem sua metade de frio.

Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.

O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

Soneto XLIV - Pablo Neruda

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que dormes à noite na calçada do relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

José Carlos Ary dos Santos

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Devias estar aqui rente aos meus lábios

Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um

- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum

Devias estar aqui rente aos meus lábios - Eugénio de Andrade

terça-feira, dezembro 23, 2008

É o tempo da travessia

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

Fernando Pessoa

domingo, dezembro 21, 2008

É viver cada segundo... Como nunca mais!

Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho

Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz

E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais

Tomara - Vinícius de Moraes

terça-feira, dezembro 16, 2008

Deves ter achado que era demais e então acabou

Querida. Veio-me hoje uma vontade enorme de te amar. E então pensei: vou-te escrever.
Mas não te quero amar no tempo em que te lembro. Quero-te amar antes, muito antes. É quando o grande acontece. E não me digas diz lá porquê. Não sei. O que é grande acontece no eterno e o amor é assim, devias saber. Ama-se como se tem uma iluminação, deves ter ouvido. ou se bate forte com a cabeça. Pelo menos comigo foi assim. Ou como quando se dá uma conjunção de astros no infinito, deve vir nos livros.
Ou mais provavelmente esse tempo nunca pôde existir. Vou pensar melhor a ver se eu próprio entendo. Ponho-me a lembrar o que passou e o que me lembra é só a tua presença forte ao pé de mim. E depois acabou. Deves ter achado que era demais e então acabou. Foste para não sei onde e estás lá fixa quando te lembro...

em «Em nome da terra», Vergílio Ferreira

sábado, dezembro 13, 2008

Buendía e Melquíades

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos.

em «Cem anos de solidão», Gabriel Garcia Márquez

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Durante o meu sono

Às vezes, como Eva nasceu de uma costela de Adão, uma mulher nascia durante o meu sono, de uma falsa posição de minha coxa. Originária do prazer que eu estava a ponto de sentir, julgava que ela é quem o oferecia. Meu corpo, que no dela sentia o meu próprio calor, procurava unir-se a ele, e eu acordava. O resto dos seres humanos parecia-me algo bem remoto comparado àquela mulher que eu havia deixado momentos antes; minhas faces ainda estavam quentes do seu beijo, meu corpo sentia-se dolorido pelo peso do seu. Se, como às vezes ocorria, ela apresentasse as feições de uma mulher que conhecera na vida, ia dedicar-me totalmente a esse objectivo: encontrá-la de novo, como os que seguem viagem para ver com os próprios olhos uma cidade desejada e imaginam ser possível desfrutar, em uma realidade, o encanto do sonho. Aos poucos, a sua lembrança se esvanecendo, eu esquecia a filha do meu sonho.

em «No Caminho de Swan», Marcel Proust

quinta-feira, dezembro 11, 2008

J'écris ton nom

Sur mes cahiers d'écolier
Sur mon pupître et les arbres
Sur le sable sur la neige
J'écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J'écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J'écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l'écho de mon enfance
J'écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J'écris ton nom

Sur tous mes chiffons d'azur
Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J'écris ton nom

Sur les champs sur l'horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J'écris ton nom

Sur chaque bouffée d'aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J'écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l'orage
Sur la pluie épaisse et fade
J'écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J'écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J'écris ton nom

Sur la lampe qui s'allume
Sur la lampe qui s'éteint
Sur mes maisons réunies
J'écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J'écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J'écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J'écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J'écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J'écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J'écris ton nom

Sur l'absence sans désirs
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J'écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l'espoir sans souvenirs
J'écris ton nom

Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.

Paul Éluard

terça-feira, dezembro 09, 2008

Morte

Eu vi a segadora. No seu campo labutando,
Caminhava apressada, segando e ceifando,
Negro esqueleto deixando o dia findar.
Na sombra onde tudo parece tremer e recuar,
O homem seguia com os olhos a foice fatal.
Tombava o vencedor sob o arco triunfal;
Ela tudo mudava: Babilónia em sono,
O trono em cadafalso, o cadafalso em trono,
As crianças em aves, em estrume os roseirais,
O outro em cinza, em rio os olhos maternais.
E as mulheres gritavam: - "Devolve o pequeno ser."
Para agora o levar, porquê deixá-lo nascer?
Pela terra se ouviam prantos lamentosos;
Nas infinitas mortalhas o vento frio soprava;
Diante da sombria foice, o povo lembrava
Um rebanho transido fugindo com temor;
Sob os seus pés, tudo era luto, noite, pavor.
Atrás dela, com a fronte reluzindo docemente,
Um anjo levava o molho de almas, sorridente.

Mors - Victor Hugo
Poemas, tradução de Manuela Parreira da Silva, edição Assírio e Alvim

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Levantado do Chão

O que mais há na terra, é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porque a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda. Será porque constantemente muda: tem épocas no ano em que o chão é verde, outras amarelo, e depois castanho, ou negro. E também vermelho, em lugares, que é cor de barro ou sangue sangrado. Mas isso depende do que no chão se plantou e cultiva, ou ainda não, ou não já, ou do que por simples natureza nasceu, sem mão de gente, e só vem a morrer porque chegou o seu último fim. Não é tal o caso do trigo, que ainda com alguma vida é cortado. Nem do sobreiro, que vivíssimo, embora por sua gravidade o não pareça, se lhe arranca a pele. Aos gritos.

(primeiro parágrafo de) Levantado do Chão - José Saramago


Finalmente, o Levantado do Chão autografado.

domingo, dezembro 07, 2008

O direito de pensar

Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos não porque tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da humanidade e da razão; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos de luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendam o direito de pensar e de ser digno.

O Terceiro Caminho - Agostinho da Silva

sábado, dezembro 06, 2008

e, de repente, apetece morrer.

e, de repente, apetece morrer. Apetece o grande sossego, imóbil e definitivo. Realmente dormir acabado. O silêncio. A solidão sem sobressaltos paisagens caras novas. A paz connosco. E sem espelho. Não ver ninguém, já mais ninguém. Esta esperança mais que certa seja acompanhada de cantos e alegria. Sem olhar para trás, para quem fica andando, inda ache graça. Os imprevisíveis lamentáveis acidentes da nossa viagem, mesmo os veniais, aqueles de que nos não demos conta na altura mas ficaram vibrando ocultos em nós como alarmes parasitas, clandestinos mas insistentes, uma térmita na aparência insignificante inofensiva embora voraz e teimosa, continuaram ressoando corroendo desfazendo lentamente uma qualquer fibra que nunca saberemos onde estava e era importante. Não se previa já? ou seria então o alvo determinado, a rota desde sempre planeada que muito nos espanta permanecesse assim mascarada doutros caminhos possíveis. A sabermos tudo antes, que chateza, que falta de iniciativa! morte prematura. Insisto, jogando no António Maria Lisboa: apetece descansar e deixar os outros descansar e descansados.

Luiz Pacheco
em Textos de Guerrilha

quinta-feira, dezembro 04, 2008

O Mundo Está Prestes a Rebentar

Não olhes.
O mundo está prestes a rebentar.

Não olhes.
O mundo está prestes a despejar a sua luz
E a lançar-nos no abismo das suas trevas,
Aquele lugar negro, gordo e sem ar
Onde nós iremos matar ou morrer ou dançar ou chorar
Ou gritar ou gemer ou chiar que nem ratos
A ver se conseguimos de novo um posto de partida.

O Mundo Está Prestes a Rebentar - Harold Pinter

quarta-feira, dezembro 03, 2008

terça-feira, dezembro 02, 2008

Sobre a arte

Pessoalmente, não sei mesmo o que é belo, mas sei do que gosto, e acho isso amplamente suficiente.

Boris Vian

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Ao meu Partido, último dia do XVIII Congresso do PCP

Deste-me a fraternidade para com o que não conheço.
Acrescentaste à minha a força de todos os que vivem.
Deste-me outra vez a pátria como se nascesse de novo.
Deste-me a liberdade que o solitário não tem.
Ensinaste-me a acender a bondade, como um fogo.
Deste-me a rectidão de que a árvore necessita.
Ensinaste-me a ver a unidade e a diversidade dos homens.
Mostraste-me como a dor de um indivíduo morre com a vitória de todos.
Ensinaste-me a dormir nas camas duras dos meus irmãos.
Fizeste-me edificar sobre a realidade como uma rocha.
Tornaste-me adversário do malvado e muro contra o frenético.
Fizeste-me ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria.
Tornaste-me indestrutível porque, graças a ti, não termino em mim mesmo.

Ao meu Partido - Pablo Neruda

Portugal chegou a hora, último dia do XVIII Congresso do PCP

Mostra-nos o teu tesouro
os teus homens, as tuas mulheres.
Não escondas mais o rosto
de ousada embarcação
posta nas guardas avançadas do Oceano.
Portugal, navegante,
descobridor de ilhas,
inventor de pimentas,
descobre o homem novo,
as ilhas assombradas,
descobre o arquipélago no tempo.

Rompe,
as teias de aranha
que cobrem o teu fragrante arvoredo,
e, e mostra-nos então,
a nós, os filhos de teus filhos,
aqueles para os quais
descobriste a areia
até então obscura
da geografia deslumbrante,
mostra-nos que tu podes
atravessar outra vez
o mar escuro
e descobrir o homem que nasceu
mas maiores ilhas da terra.
Navega, Portugal, chegou
a hora, levanta
a tua estatura de proa
e entre as ilhas e os homens volta
a ser caminho.
Reúne hoje
a tua luz, volta a ser lâmpada:
aprenderás de novo a ser estrela.

Pablo Neruda