- Eu, embora cigana, nascida pobre e humilde, tenho cá dentro um espiritozinho fantástico que me leva a grandes coisas. Não me demovem promessas, nem me vencem dávidas, não me inclinam submissões, nem me espantam finezas apaixonadas; e ainda que tenha só quinze anos (que farei pelo S. Miguel, segundo a conta de minha avó), sou já velha no pensar e alcanço mais do que os meus anos permitem, mais por meu bom natural do que pela experiência. Por uma e outra coisa, sei que as paixões amorosas nos apaixonados de fresco são como ímpetos cegos que fazem sair a vontade dos gonzos, e esta, passando por cima de todos os obstáculos, corre desatinada atrás do seu desejo e, quando julga encontrar a glória dos seus olhos, dá com o inferno dos seus pesadelos. Se alcança o que deseja, mingua-lhe o desejo com a posse da coisa desejada e, porque talvez então se abram os olhos do entendimento, parece-lhe bem que se aborreça o que se adorava antes. Este receio torna-me de tal modo reservada, que não acredito em palavras e duvido de muitas obras.
em A Ciganita - Miguel de Cervantes
quinta-feira, outubro 30, 2008
Se alcança o que deseja, mingua-lhe o desejo
quarta-feira, outubro 29, 2008
terça-feira, outubro 28, 2008
Um blog que vale a pena ler...
Quando em Fevereiro de 1993 nos instalámos em Lanzarote, conservando sempre a casa de Lisboa, meus cunhados María e Javier, que já ali viviam há alguns anos, junto a Luis y Juanjo, recém-chegados, ofereceram-me um caderno que deveria servir de registo dos nossos dias canários. Punham uma só condição: que de vez em quando fizesse menção das suas pessoas. Nunca escrevi nada no tal caderno, mas foi desta maneira, e não por outras vias, que nasceram os Cadernos de Lanzarote, que durante cinco anos veriam a luz. Hoje, sem esperar, encontro-me numa situação parecida. Desta vez, porém, as causas motoras são Pilar, Sérgio e Javier, que se ocupam do blog. Disseram-me que reservaram para mim um espaço no blog e que devo escrever para ele, o que for, comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, enfim, o que vier a talhe de foice. Muito mais disciplinado do que frequentemente pareço, respondi-lhes que sim, senhor, que o faria desde que não me fosse exigida para este Caderno a assiduidade que a mim mesmo havia imposto nos outros. Portanto, pelo que isso possa valer, contem comigo.
n'O Caderno de Saramago
domingo, outubro 19, 2008
Como o rubi mais precioso entre os restantes
As certezas do meu mais brilhante amor
Vou acender, que amanhã não há luar
E eu colherei do pirilampo um só fulgor
Que me perdoe o bom bichinho de o roubar
Assobiando as melodias mais bonitas
E das cidades descrevendo o que já vi
Homens e fósseis e seus gestos como escritas
Do bem e do mal, a paz a calma e frenesim
Se estou sozinho é num beco que me encontro
Vou porta a porta perguntando a quem me viu
Se ali morei, se eu era o mesmo e em que ponto
O meu desejo fez as malas e fugiu
Assobiando a melodia mais bonita
A da certeza do meu mais brilhante amor
Da sensação de entre as demais a favorita
Que é ver a rosa com o tempo a ganhar cor
Assobiando as melodias mais brilhantes
Como o brilhante da certeza de um amor
Como o rubi mais precioso entre os restantes
Que é o da meiguice alternando com ardor
Não negarei ficar assim nesta beleza
Assobiando as melodias mais fugazes
Não é possível nem é simples, concerteza
Mas é vontade que me dá do que me fazes
As certezas do meu mais brilhante amor - Sérgio Godinho
sexta-feira, outubro 17, 2008
Proust
A nossa personalidade social é uma criação do pensamento alheio.
No Caminho de Swann - Marcel Proust
terça-feira, outubro 14, 2008
Malraux
...Os homens mais novos não entendem o...como é que vocês dizem?...o erotismo.
Até aos quarenta, caímos sempre no mesmo erro, não sabemos libertar-nos do amor; um homem que, em vez de pensar numa mulher como complemento de um sexo, pensa no sexo como complemento de uma mulher, está pronto para o amor: tanto pior para ele. Mas há pior; a época em que a obsessão do sexo, a obsessão da adolescência, regressa, mais forte ainda alimentando-se de toda a espécie de recordações...
em A estrada real - André Malraux
segunda-feira, outubro 13, 2008
domingo, outubro 12, 2008
O problema da educação..
Os homens nascem ignorantes, não estúpidos. Eles são feitos estúpidos pela educação..
Bertrand Russell
quinta-feira, outubro 09, 2008
10 anos de Nobel, Muitos mais de intervenção!
Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.
em Ensaio sobre a cegueira - José Saramago
quarta-feira, outubro 08, 2008
Sabe a pedra amarga
Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.
Respiro o teu corpo - Eugénio de Andrade
terça-feira, outubro 07, 2008
Intuitos
O que sinto é o que faço. Isso para mim é o mais importante. Todos podem ver, mas nem sempre vêem.
André Kertész
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