sábado, setembro 27, 2008

Les grands plongeurs noirs


Les grands plongeurs noirs - Fernand Léger
1944, Oil on canvas, 189 x 221 cm.
Musée national d’art moderne / Centre de création industrielle, Centre Pompidou, Paris

sexta-feira, setembro 26, 2008

Num quarto só

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

Poema dum Funcionário Cansado - António Ramos Rosa

terça-feira, setembro 23, 2008

Uma sensação de vazio imensurável

De modo que é assim que vivemos as nossas vidas. Não importa quão profunda e fatal seja a perda, o quão importante fosse o que nos roubaram - que foi arrebatado de nossas mãos -, mesmo que mudemos completamente, com somente a camada externa da pele igual à de antes, continuamos a representar as nossas vidas dessa maneira, em silêncio. Aproximamo-nos cada vez mais do fim da dimensão do tempo que nos foi estipulado, dando-lhes adeus enquanto vai minguando. Repetindo, quase sempre habilmente, as proezas sem fim do dia-a-dia. Deixando para trás uma sensação de vazio imensurável.

excerto de 'Sputnik, Meu Amor' - Haruki Murakami

sábado, setembro 20, 2008

E por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos .E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira

sexta-feira, setembro 19, 2008

Palavras bonitas

É mais fácil ser-se amante do que marido pela simples razão de que é mais difícil ser-se sempre espirituoso todos os dias do que dizer palavras bonitas de tempos a tempos.

Honoré de Balzac

quinta-feira, setembro 18, 2008

Em cada mulher a gente lembra outra

- Por que mentiste sobre mim?, lhe perguntei.
- Porque não queria que fosses.
- Mas eu não vou embora, Carolinda.
- Não acredito, isto não é terra de ninguém ficar. Vais partir, tu não pertences aqui.
- Mas por que razão me soltas, então?
- Para que vás para tão longe que pareças impossível. E agora vai-te e não voltes nunca mais.
Depois, me empurrou com suavidade. Mas eu resisti, me demorando junto dela. Assim, de face em riste, ela me surgia exclusivamente única, triste como pétala depois da flor. Meu peito se encheu. Eu sei que em cada mulher a gente lembra outra, a que nem há. Mas Carolinda me entregava essa doce mentira, o impossível cálculo do amor: dois seres, um e um, somando o infinito. Se aproximou e me acariciou os braços, ali onde as cordas me doeram. A cintura de suas mãos me afagavam, em suave arrependimento. Aquele momento confirmava: o melhor da vida é o que não há-de vir.

em Terra Sonâmbula - Mia Couto

sábado, setembro 13, 2008

quarta-feira, setembro 10, 2008

Boccaccio

Num voo de pombas brancas, um corvo negro junta-lhe um acréscimo de beleza que a candura de um cisne não traria.

em Decameron, Giovanni Boccaccio

terça-feira, setembro 09, 2008

Fraude

A primeira e pior de todas as fraudes é enganar-se a si mesmo. Depois disto, todo o pecado é fácil.

J. Bailey