sexta-feira, novembro 23, 2007

Simpatia e indiferença...

Max Jacob perguntou-me um dia por que razão eu era tão simpático para com as pessoas que pouco me importavam e tão duro com os meus amigos. Respondi-lhe que a minha bondade era uma forma de indiferença; quanto aos meus amigos, queria-os perfeitos, pelo que tinha sempre algumas críticas a fazer-lhes e desejava pô-los à prova de vez em quando, para me certificar de que os nossos laços tão sólidos como deviam ser.

Pablo Picasso


Subscrevo integralmente.. excepto o "Max Jacob perguntou-me" claro :P

quinta-feira, novembro 22, 2007

É em frente que vamos!

A viagem fazemo-la num qualquer modesto cargueiro
Existe ainda um porto onde não tivéssemos tocado?
Existe alguma espécie de tristeza que ainda não tivéssemos cantado?
O horizonte que a cada manhã tínhamos pela frente
Não era igual ao que à noite deixávamos para trás?
Quantas estrelas desfilaram à nossa frente
Roçando as águas
Não era cada aurora o reflexo
Da nossa grande nostalgia?
Mas é em frente que vamos, não é verdade?
É em frente que vamos.

in Poemas da Prisão e do Exílio, Nazim Hikmet

segunda-feira, novembro 19, 2007

Aniversário!

Hoje faz 65 anos que o Mundo se começou a soltar dos grilhões do mais feroz do estados fascistas e começou a ganhar a Segunda Grande Guerra.

No dia 19 de Novembro de 1942 deu-se o começo da ofensiva do Exército Soviético em Estalinegrado. No fim desta, em 2 de Fevereiro de 1943, o 6º Exército Alemão ficaria cercado, vendo-se obrigado a render-se ao Exército Vermelho.

Foi em Estalinegrado que, em 28 de Junho de 1942, a Alemanha Nazi e a sua Blitzkrieg a caminho de Moscovo pararam. E foi em Estalinegrado que a Alemanha Nazi - aquela que se julgava indestrutível - recebeu o mais duro golpe que viria posteriormente, em Maio de 1945, a ditar a sua capitulação em Berlim!

Hoje, 65 anos passados, aqui fica a homenagem ao Povo Soviético, às massas de Estalinegrado que heroicamente resistiram e ao Exército Vermelho! Para que não se esqueça e não se repita!

Ficam algumas homenagens de alguns dos poetas maiores do Séc.XX à vitória em Estalinegrado e ao Exército Vermelho da União Soviética!

Os que humilharam o Arco do Triunfo
Os que atravessaram as águas do Sena
Com o assentimento do escravo.
Pararam em Estalinegrado.

Os que em Praga-a-Bela sobre lágrimas,
Sobre um país traído e mudo,
Passaram espezinhando as feridas,
Morreram em Estalinegrado.

Os que escarraram na caverna grega
Sobre a estalactite de cristal mutilado
E o seu tão clássico azul subtil,
Que é deles hoje, Estalinegrado?

Os que queimaram e devastaram a Espanha,
Trespassando o coração
Dessa mãe de florestas e guerreiros,
Apodrecem aos teus pés, Estalinegrado.

Os que na Holanda enxovalharam
As tulipas e a água com lama ensaguentada,
E fizeram reinar o chicote e a espada,
Dormem presentemente em Estalinegrado.

Os que na branca noite da Noruega,
Com rugidos de chacal enraivecido,
Crestaram as flores da neve,
Calaram-se em Estalinegrado.

Honra te seja pelo que vem nos ares,
Pelo que deve ser cantado e foi cantado,
Honra às tuas mães e aos teus filhos,
E aos teus netos, Estalinegrado.

Pablo Neruda



E que recebeu a mulher do soldado,
De Praga a velha cpital?
Os bons-dias e sapatos,
Ela recebeu de Praga a bela cidade.

E que recebeu a mulher do soldado,
de Varsóvia nas margens do Vístula?
De Varsóvia ela recebeu uma camisa de linho;
Tão garrida, tão estranha esta camisa polaca
Que ela recebeu das margens do Vístula.

E que recebeu a mulher do soldado,
De Oslo para lá do Sund?
De Oslo ela recebeu a gola de peles;
Oxalá lhe agrade a gola de peles
Que ela recebeu de Oslo para lá do Sund!

E que recebeu a mulher do soldado,
Da opulenta Roterdão?
De Roterdão ela recebeu o chapéu;
Fica-lhe bem o chapéu holandês
Que ela recebeu de Roterdão.

E que recebeu a mulher do soldado,
De Bruxelas na Bélgica?
De Bruxelas ela recebeu finíssimas rendas;
Ah! que bom possuir tão finas rendas
Como as que ela recebeu da Bélgica!

E que recebeu a mulher do soldado,
De Paris, a cidade-luz?
De Paris ela recebeu o vestido de seda;
As vizinhas tiveram ciúmes do vestido de seda
Que ela recebeu de Paris.

E que recebeu a mulher do soldado,
De Trípoli na Líbia?
De Trípoli ela recebeu o bracelete;
O amuleto e a pulseira de cobre
Ela recebeu-os de Trípoli.

E que recebeu a mulher do soldado,
Da longínqua Rússia?
Da Rússia ela recebeu o véu lutuoso;
O véu lutuoso para as solenes exéquias,
Ela recebeu-o da longínqua Rússia.

Bertolt Brecht



Stalingrado...
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.

Carta a Stalingrado - Carlos Drummond de Andrade



Vós os vereis surgir da aurora mansa
Firmes na marcha e uníssonos no brado
Os heróicos demônios da vingança
Que vos perseguem desde Stalingrado.

As mãos queimadas do fuzil candente
As vestes podres de granizo e lama
Vós os vereis surgir subitamente
Aos heróicos prosélitos do Drama.

De início mancha tateante e informe
Crescendo às sombras da manhã exangue
Logo o vereis se erguer, o Russo enorme
Sob o sol rubro como um punho em sangue.

E ao seu avanço há de ruir a Porta
De Brandemburgo, e hão de calar-se os cães
E então hás de escutar, Cidade Morta
O silêncio das vozes alemãs.

A Berlim - Vinícius de Moraes

sábado, novembro 17, 2007

Construtivismo...

Para educar o homem a ver de uma nova maneira, devemos mostrar-lhe os objectos quotidianos a partir de perspectivas totalmente insólitas e em situações inesperadas.

Alexander Rodchenko

quarta-feira, novembro 07, 2007

Eu sou pela moral contra o moralismo burguês.

Eu sou pela moral contra o moralismo burguês. Qual é a diferença? O moralista diz o 'não' aos outros, o homem moral di-lo apenas a si próprio.

Pier Paolo Pasolini

domingo, novembro 04, 2007

Vemos, ouvimos e lemos, Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

D’África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado

Sophia de Mello Breyner

quinta-feira, novembro 01, 2007

Pátria.. podia ter sido escrito hoje! Infelizmente...

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. [.]

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.

Pátria - Guerra Junqueiro (1896)