quarta-feira, agosto 29, 2007

Em Paris, dois Comunistas no exílio

Para mim, indiscutivelmente, os dois maiores vultos da arte do séc. XX...

... con ternura fraternal, el genial minotauro de la pintura moderna se preocupaba de mi situación en sus detalles más ínfimos. Hablaba con las autoridades; telefoneaba a medio mundo. No sé cuántos cuadros portentosos dejó de pintar por culpa mía. Yo sentía en el alma hacerle perder su tiempo sagrado.

Neruda sobre Picasso (em "Confesso que Vivi")

terça-feira, agosto 28, 2007

A fome insatisfeita que senti

Red Cannas - Georgia O'Keeffe

Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...

Poema melancólico a não sei que mulher - Miguel Torga

sexta-feira, agosto 24, 2007

Help!

Help, I need somebody,
Help, not just anybody,
Help, you know I need someone, help.

When I was younger, so much younger than today,
I never needed anybody’s help in any way.
But now these days are gone, I’m not so self assured,
Now I find I’ve changed my mind and opened up the doors.

Help me if you can, I’m feeling down
And I do appreciate you being round.
Help me, get my feet back on the ground,
Won’t you please, please help me.

And now my life has changed in oh so many ways,
My independence seems to vanish in the haze.
But every now and then I feel so insecure,
I know that I just need you like I’ve never done before.

Help me if you can, I’m feeling down
And I do appreciate you being round.
Help me, get my feet back on the ground,
Won’t you please, please help me.

When I was younger, so much younger than today,
I never needed anybody’s help in any way.
But now these daya are gone, I’m not so self assured,
Now I find I’ve changed my mind and opened up the doors.

Help me if you can, I’m feeling down
And I do appreciate you being round.
Help me, get my feet back on the ground,
Won’t you please, please help me, help me, help me, oh

Help! - The Beatles

Dora

[...] Ela de longe sorria para Pedro Bala. Não havia nenhuma malícia no seu sorriso. Mas seu olhar era diferente do olhar de irmã que lançava aos outros. Era um doce olhar de noiva, de noiva ingênua e tímida. Talvez mesmo não soubessem que era amor. Apesar de não ser noite de lua, havia um romântico romance no casarão colonial. Ela sorria e baixava os olhos, por vezes piscava com um olho porque pensava que isto era namorar. E seu coração batia rápido quando o olhava. Não sabia que isso era amor. [...]

Capitães da Areia - Jorge Amado

quarta-feira, agosto 22, 2007

Rei Salomão, o sábio...

Rei Salomão e a Rainha de Sabá - Peter Paul Rubens

A história dessa rainha de Sabá - à qual os abissínios chamam Makeda e o Corão Balkis - está ligada a uma lenda que se perpetua há três mil anos.

Por volta do ano mil antes de Cristo, a rainha de Sabá, intrigada com a sabedoria do
rei dos judeus Salomão, efectuou uma viagem à Judeia.

O acolhimento reservado a essa rainha digna das Mil e Uma Noites foi excepcional, e Salomão tentou mesmo convencê-la a abraçar a sua religião. A duração da estada transformou as relações entre esse rei e essa rainha, com o primeiro a sentir incrementarem-se, a respeito da segunda, sentimentos que já não tinham nada de protocolares. A lenda refere que, para o jantar oferecido pelo rei dos judeus, na véspera da partida da rainha de Sabá, foi previsto servir apenas iguarias fortemente condimentadas, segundo o costume oriental.

Apercebendo-se das intenções de Salomão, ela obrigou-o a prometer que não se aproveitaria da situação durante o seu sono. A promessa foi aceite, com uma condição: a rainha não tomaria coisa alguma do que havia no palácio.

Torturada pela sede, ela acabou por ceder e bebeu um copo de água, gesto que Salomão aguardava e o libertou do juramento.

A Rainha de Sabá - André Malraux

terça-feira, agosto 21, 2007

Poesia à noite...

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizontee
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

Lembra-te - Mário Cesariny

sexta-feira, agosto 17, 2007

Receita de Mulher

Les Demoiselles d'Avignon - Pablo Picasso

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize
elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso
que súbito tenha-se a
impressão de ver uma
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só
encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso,
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que
umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras:
uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

Receita de Mulher - Vinícius de Moraes

terça-feira, agosto 14, 2007

Vem, vem à minha casa

Tenho à janela
Uma velha cornucópia
Cheia de alfazema
E orquídeas da etiópia

Tenho um transistor ao pé da cama
Com sons de harpas e oboés
E cantigas de outras terras
Que percorri de lés-a-lés

Tenho uma lamparina
Que trouxe das arábias
Para te amar à luz do azeite
Num kama-sutra de noites sábias

Tenho junto ao psyché
Um grande cachimbo d'água
Que sentados no canapé
Fumamos ao cair da mágoa

Tenho um astrolábio
Que me deram beduínos
Para medir no firmamento
Os teus olhos astralinos

Vem, vem à minha casa
Rebolar na cama e no jardim
Acender a ignomínia
E a má língua do código pasquim
Que nos condena numa alínea
A ter sexo de querubim

Bairro do Oriente - Carlos Tê / Rui Veloso

segunda-feira, agosto 13, 2007

Certa loucura

A propósito de Rojas Gimenéz, direi que a loucura, certa loucura, anda muitas vezes de braço dado com a poesia. Assim como custaria muito às pessoas equilibradas serem poetas, talvez custe muito aos poetas serem equilibrados.

Pablo Neruda [Confesso que vivi]

Canções do Povo

Enquanto houver naufrágios, desastres, ciclones, furacões, linchamentos, agitação social, preços altos e salários baixos, enquanto houver polícias de uniforme e reprimirem os grevistas, as canções do povo e as baladas do povo seguirão para diante.

Woody Guthrie

quinta-feira, agosto 09, 2007

Calai-vos que pode o povo querer um mundo novo a sério

Embora os meus olhos sejam
os mais pequenos do mundo
o que importa é que eles vejam
o que os homens são no fundo

Que importa perder a vida
na luta contra a traição
se a razão mesmo vencida
não deixa de ser razão

Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo
calai-vos que pode o povo
querer um mundo novo a sério

Eu não tenho vistas largas
nem grande sabedoria
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia


Música de Francisco Fanhais
Quadras de António Aleixo

quarta-feira, agosto 08, 2007

Minhas palavras

Apesar de já ter escrito alguma (pseudo) poesia e prosa não me sinto à vontade para a publicar. Parecem-me mais de carácter introspectivo (no caso da poesia) ou ensaísta (no caso da prosa).

Ficam no entanto duas palavras (as primeiras e últimas) sobre o caso da miúda inglesa aqui.
E duas palavras (ou três), em resposta a uns comentários, sobre Chavez (e alguma História) aqui e aqui.

segunda-feira, agosto 06, 2007

E cada qual no seu canto, Em cada canto uma dor

Armando Ruiz Oaxaca
Estava à toa na vida, O meu amor me chamou, Pra ver a banda passar, Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida, Despediu-se da dor, Pra ver a banda passar, Cantando coisas de amor
O homem sério que contava dinheiro parou, O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou, Para ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu, A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou, Pra ver a banda passar, Cantando coisas de amor
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou, Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela, Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu, A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou, Pra ver a banda passar, Cantando coisas de amor
Mas para meu desencanto, O que era doce acabou, Tudo tomou seu lugar, Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto, Em cada canto uma dor, Depois da banda passar, Cantando coisas de amor

A Banda - Chico Buarque

sexta-feira, agosto 03, 2007

A minha cabeça

... por dentro, a minha cabeça ia cheia de livros, de sonhos e de poemas que me zumbiam como abelhas.

Pablo Neruda, in "Confesso que Vivi"
La muerte no es verdad cuando se ha cumplido bien la obra de la vida.

José Martí

quinta-feira, agosto 02, 2007

Muitos intelectuais são amantes desajeitados, tímidos, assustados, distraídos.

Marguerite Duras

quarta-feira, agosto 01, 2007

Um banqueiro é um tipo que nos empresta o chapéu de chuva quando está sol e que o pede de volta assim que começa a chover.
Mark Twain