terça-feira, janeiro 30, 2007

Duas..

Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar
in Só - Jorge Palma

domingo, janeiro 28, 2007

Pena Capital (I)

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça
Estação - Mário Cesariny

Gritar não grito
esperar demora.
Vira o infinito!
Ora, ora, ora.
in Vinte quadras para um dádá - Mário Cesariny

sexta-feira, janeiro 26, 2007

A única pintura que tenho quarto...

Cristo di San Giovanni della Croce - Salvador Dali

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Pequena folha

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.
Pablo Neruda

sexta-feira, janeiro 19, 2007

IVG

Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o orgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.
Natália Correia

Poema de Natália Correia a João Morgado, deputado do CDS, em resposta a este no debate de 1982 sobre a legalização da IVG. O referido deputado tinha dito no debate que "O acto sexual é para ter filhos."

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Minha laranja amarga e doce

Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.

Cavalo à Solta - José Carlos Ary dos Santos

sábado, janeiro 13, 2007

Por los campos de mi alma

Por los campos de mi alma galopan dos caballos
uno negro y otro blanco, por mi alma galopando.
Y en los días cuando te beso, galopan mis caballos,
vuelan, vuelan, galopando hasta tu cielo.
Caballo de paz, caballo de odio, caballo de guerra,
caballo sonrisa, caballo de llanto, caballo justicia, caballo libertad...
Canción de los caballos - José Antonio Nachón

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Hoje só sei palavras de ódio

Hoje só sei palavras de ódio, palavras de morte. Não encontrarás um cravo ou uma rosa, uma flor na minha literatura. Mas encontrarás um punhal ou um fuzil, encontrarás uma arma contra os inimigos da beleza, contra aqueles que amam as trevas e a desgraça, a lama e os esgotos, contra esses restos de podridão que sonharam esmagar a poesia, o amor e a liberdade!
Jorge Amado

sábado, janeiro 06, 2007

Aleixo, Poeta do Povo!

I
Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.

II
Após um dia tristonho,
de mágoas e agonias
vem outro alegre e risonho:
são assim todos os dias.

III
Uma mosca sem valor
poisa, c'o a mesma alegria,
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.

IV
Mentiu com habilidade,
fez quantas mentiras quis;
agora fala verdade,
ninguém crê no que ele diz.

V
Casado que arrasta a asa
à mulher deste e daquele,
merece que tenha em casa
outro homem em lugar dele.

VI
Não sei porque razão
certos homens ,a meu ver,
quanto mais pequenos são
maiores querem parecer.


VII
Sei que pareço um ladrão...
mas há muitos que eu conheço
que, sem parecer o que são,
são aquilo que eu pareço.

VIII
O homem sonha acordado;
sonhando a vida percorre...
e desse sonho dourado
só acorda, quando morre!

IX
Quando um náufrago se estafa,
julga ver - triste ilusão!
- na rolha de uma garrafa
- a bóia de salvação!

X
Tanto da vida conheço,
que ao ver o mundo tão torto,
às vezes, quando adormeço,
desejava acordar morto.

XI
Só desejo dar um beijo
no rosto duma mulher,
se for maior o desejo
do que o beijo que eu lhe der.

XII
A quadra tem pouco espaço
mas eu fico satisfeito
quando numa quadra faço
alguma coisa de jeito.
António Aleixo

António Aleixo, o poeta do povo, sem instrução escolar, apenas sabia ler e escrever

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Leitura obrigatória

Homens brotavam, um exército negro, vingador, que germinava lentamente nos sulcos da terra, crescendo para as colheitas do século futuro, cuja germinação não tardaria fazer rebentar a terra.
in Germinal - Émile Zola